Xingamentos e A Metáfora da Fogueira

Postado por Last Hit 25/06/2015 no Opinião

Apesar do título generalizar essa questão, focarei em Dota 2. Já que é o ambiente mais conhecido por mim.

Quem nunca entrou em uma partida e depois de ceder a uma bela primeira morte (first blood) ouviu uma frase como “Seu lixo noob, desinstale o Dota” ou coisa pior? Sendo honesto, até o mais paciente de nós já deve ter tido um dia de fúria dentro do joguinho.

É natural o estresse. Ele surge nas partidas, especialmente as ranqueadas. Os nervos se aquecem e você solta os xingamentos que tem na agulha. Mas fazer isso dentro do jogo gera alguns problemas. É normal soltar xingamentos no nosso quarto, ou no íntimo de nossos lares, quando algo dá errado. Porém isso não traz benefícios quando dito aos seus aliados ou inimigos. Na verdade, ele se voltará contra você e te irritará ainda mais.

Começar a lançar xingamentos aos próprios companheiros de jogo só causa desavenças dentro do grupo, seja ele de amigos ou não. Isso pode prejudicar a comunicação e, fatalmente, levar à uma derrota. Situação que só vai servir para te deixar mais frustrado ainda.

Um xingamento aqui ou ali pode, sim, servir pra chamar a atenção. Dado o nível de emoção dentro do jogo, é normal se exaltar vez ou outra. Quando isso é tudo que você fala a comunicação se torna falha, porém, esse não é o maior problema e nem o que me proponho a discutir aqui. O buraco é mais embaixo.

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“Droga, tomei o First Blood! Vão me xingar!”

Crer que da noite para dia os jogadores vão parar de xingar uns aos outros quando irritados é inocência. Não há muitos problemas em soltar um casual “seu merda”, “seu lixo”, “para de jogar com o cotovelo” e afins.  São expressões soltas, que fazem parte do nosso cotidiano. Não necessariamente você acha que o outro jogador é uma pilha de merda ou um monte de lixo. Na verdade, a tentativa é dizer que ele está jogando mal ou fazendo coisas erradas, é um simples puxão de orelha um pouco mal-educado.

O problema mesmo surge quando os xingamentos se tornam preconceituosos. Sim, estou me referindo à você, mau caráter, que chama o coleguinha de “macaco”, fala que o jogo acabou quando descobre que tem uma mulher no time, que reclama do sotaque regional quando o companheiro de time fala ou que pensa ofender alguém ao chamá-lo de “viado”. A gente até já abordou um ou outro destes problemas isoladamente, mas aqui a discussão é um pouquinho mais ampla.

Nesse ponto da nossa reflexão, muitos terão virado os olhos, pensando: “Ah, lá vem mais um com esse papo. Não aguento mais!”

Como dito anteriormente, sou uma pessoa paciente e irei citar os pontos que acho preocupantes nesse tipo comportamento. Aos que tiverem a chance de ler e refletir, agradeço antecipadamente.

Acho que vale a pena começar dizendo o seguinte: racismo, machismo, homofobia e xenofobia são problemas sociais, problemas que estão enraizados por vários e vários anos de repetição e perpetuação dessas culturas.

Na antiguidade acreditava-se que a mulher era apenas o homem desprovido da razão, por exemplo, e essa ideia se perpetuou por meio de repetições. “Claro que a mulher é o homem sem a razão!”. No século XIX, a antropologia classificou os negros como um ser menor, mais próximo do macaco. “Negro não é nem humano!”. Nos tempos atuais, alguns procuram a depreciativa e absurda “cura gay”. “Nossa, homossexuais são doentes!”.

Advinha o que você está fazendo quando usa um xingamento machista/racista/homofóbico? Exatamente, caro leitor, você está perpetuando esses pensamentos. Não importa se você diz não acreditar neles, você está dando voz e força à uma cultura, que SIM, acredita no que está sendo dito. Mesmo que você mesmo não acredite.

“Ah, mas eu só falo brincando!” – Diz aquele que assume a culpa parcialmente. O problema é que mesmo “brincando” você está reforçando essas ideias. Não cabe à quem diz decidir se algo é ofensivo ou não. Por mais que você não acredite em nada disso, até ache engraçado, muitas pessoas acreditam. E ao usar estas expressões, você está dando apoio a quem realmente acredita nelas.

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“Sua mãe não é homem! Tu tem delay mental!”

Esse problema pode ser explicado por uma metáfora que chamarei de metáfora da fogueira. Você está de frente pra uma fogueira e várias pessoas estão jogando lenha nessa fogueira.

(Viado! Macaco! Lugar de mulher é na cozinha!) Chega você, feliz e faceiro e resolve fazer uma brincadeira, pega sua lenha e joga na fogueira.

(Mas eu só estou brincando! Qual o problema disso?) Claro, você é melhor que esses loucos, você sabe que jogar a lenha na fogueira foi só uma brincadeira. Mas sendo uma brincadeira ou não, você lançou o combustível ao fogo e ele vai aumentar por isso.

É exatamente o que acontece com o vocabulário utilizado em xingamentos. Por mais que não acredite no que está falando, você está, inegavelmente, perpetuando um vocabulário pertencente à uma cultura machista, racista, xenofóbica e/ou homofóbica. Isso só vai piorar as coisas. Talvez não pra você, hétero, branco, cis, homem, mas para as pessoas que estão na outra ponta dessa discussão. A visão das coisas é outra pra quem sofre a agressão, cabe a eles decidir se foram agredidos.

“Ah, mas se eu não puder falar essas coisas, de que eu vou xingar? Aff, pare de estragar minhas piadas!” Meu amigo, se você precisa desse vocabulário pra ser “engraçado”, suspeito que você não seja tão engraçado quanto pensa.

Exercite sua criatividade, estimado leitor. Por exemplo, você pode virar pro seu coleguinha e dizer que “nem Noé teve que carregar tanto animal”, dizer que seu coleguinha “é pior do que o filme Highlander 2”, ou, caso você queira ser REALMENTE ofensivo (não recomendo) você pode dizer que ele “é o Batman & Robin (1997, aquele com o GEORGE CLOONEY e o SCHWARZENEGGER) dos jogadores de Dota 2“.

Reitero, todos já xingaram dentro do Dota, como dito acima, é o considerado normal. Mas nem por isso você precisa continuar fazendo isso. Com certeza um estilo de jogo mais compreensivo e parcimonioso só trará benefícios pro jogador médio.

Em tempo: chamar de “Pilantra” é sempre uma boa pedida.